Será que alguém vai poder me perdoar?



O Taxista (fragmento)
(...) No fundo do carro o namoradinho berrava num aparelho celular: Ela tomou a porra toda! No retrovisor, os olhos dela, entreabertos, pareciam viver um momento de cada vez. Lembrou-se do mar. Em algum tempo, muito distante, fora feliz. No fundo do carro, dentro do rapaz, havia uma dúvida. Outra dúvida cortava os olhos dela. Ele mesmo dirigia se perguntando: Onde foi que eu parei? Do silêncio brotou uma voz. Era ela. Tinha uma certeza: Não queria morrer. Pediu. Ela tomou o quê? No retrovisor, os olhos do rapaz envelheceram. Ele não ia dizer. O barco branco era inteiro dela, agora. Ela se afogava no ar, como se estivesse passageira de um naufrágio interno. Era preciso continuar dirigindo. Desviar das poças. Pensou em futebol de botão. A vida é uma coisa tão simples. Instintivamente, olhou pra trás. Foi por causa dele que o rapaz notou. Acelerou o carro e as veias pulsavam, ele as sentia. Corria por si mesmo. Ela já não estava. O rapaz o xingava como se ele tivesse criado a realidade só por tê-la visto. Não havia mais pressa e havia. Uma nova pressa. Ele precisou sorrir. Sorriu dentro. Por fora, chorava junto com o rapaz. (...)