O hotel Marina quando acende.

 

 

 

 

Armadilha. Ódio não é escolha, é destino. Eu sou cheia de fendas. Peço avisando: me deixe. Armadilha, eu vejo, armada. Declino. Ninguém me vale. Declino. Só é forte quem sabe ser. Declino. Só sei seguir conforme o reto que eu tracei. Tracei o reto por cima do reto. Não vou dar em lugar nenhum, desemboco em mim. Favor? Prisão. Não aceito nem peço.Cachorro que latir pra mim, eu chuto a cabeça. Esse caminho de armadilha todo, desvio.

 

O Canibal. (Fragmento)

 

 

 (...) Começou a primeira canção, os homens se agitaram, o pátio estava sujo, o dia estava branco, ainda bem que não era o sol, o sol ressalta a obscenidade de tudo, mas onde estava ele? O homem. Estava errado. Na metade da segunda canção achou errado cantar o amor de Jesus pra ele. Errado porque inútil. Imaginou uma cabeça de frango em lugar da sua própria cabeça. Trocou o taipe que acompanhava a sua voz. Mudaria o repertório, por causa dele. Só se deu conta do que fez quando a atmosfera religiosa do primeiro repertório que tinha preparado transformou-se em um pátio de homens embalados por uma melodia apaixonada, sofrida e sensual. Um guarda a olhou, desconfiado. Ela viera falar de amor.

A canção pedia que ele nunca fosse embora, ela se emocionou. Cantava para um homem que nunca havia, sequer, chegado. Carne de gente. Ela nunca vira. Vira, quando muito, uma pessoa morta. Ele olhava, via diferente. Ele conhecia o gosto. Ela não poderia nunca olhar nos olhos dele. Não queria vê-lo. Não queria jamais vê-lo. Cidade, despertadora do lúcifer, devolve minha virgem, minha virgem que era branca e pura. Fechou os olhos. Estava num pátio, entre os sujos. A carne do Cristo tinha gosto de farinha. O Cristo não era uma pessoa. Olhou-se de fora, viu-se alma desesperada. Precisava saber amá-lo. Estava em missão. Reabriu os olhos, tudo nevoado. Era preciso amá-lo pelo seu todo de ruim. E seguir sozinha, muito sozinha, como era. Seguiu cantando. Um minuto de atenção para o corpo e os sapatos voltaram a incomodar. E se os tirasse? Mais um pouco de nudez? Não. Um pé não se desnuda, se descalça. Tirou os sapatos. Alívio. E o guarda? Por quê tão agitado agora? (...)

 

 

 

 

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