2008. Genoma humano. Rock n’ Roll. Bomba Atômica. O homem na lua multiplicando ovelhas como se fossem pães. Miles Davis.
Martin Luther King. Jonh Lennon. João Cabral de Mello Neto. Caetano e Gil.
No meu tempo, foi isso que eu vi. Não sei valorar homem nenhum pela cor da pele.
Dona Zeínha viu diferente. Foi o negro sendo escravo. Nunca mais conseguiu deixar de sentir meio gente – meio coisa.
Resolveu estudar pra ver se o lado gente sobressaía. Rodou mundo.
Quando eu visitava, dizia:
- Essa questão está ultrapassada. Ninguém devia mais se importar com cor da pele. Uma pessoa é muito mais que isso.
- A Bahia é terra antiga. Fazer o quê? Tem sabedorias...
Ela se orgulhava de ser negra, como se a cor de sua pele fosse um mérito, a tornasse especial, diferente de mim.
Pra mim, não era. Eu já estava na era cibernética. United Colors of Benetton.
Ela pareceu ler meus pensamentos e disse, batendo na perna escura:
- Nesse mundo errado, isso aqui dá um conhecimento do diário...
Terminou puxando meu cabelo...
- que esse aqui não dá.
Pensei em Zeínha sendo negra na Bahia, pensei em mim sendo nordestina em São Paulo e mulher no mundo,
implorei que o novo viesse, esse novo que anda na minha cabeça,
o dia que só importará estabelecer o que somos para aumentar a beleza do que estamos oferecendo.
Seja lá quem formos.
Desejava bem o novo quando Zeínha me cortou:
- Mas a Bahia é terra antiga. Fazer o quê? Tem sabedorias...
Geralmente eu não gostava do jeito de Ialorixá que Zeínha assumia toda vez que ia começar a falar da Bahia,
mas quando a olhei tive a impressão que estava diante de uma luz envolta por um tapete negro que era a pele de Zeínha.
Olhei de um jeito que ela sorriu. Acho que notou que eu a reconheci. Eu a reconheci.



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