Quando a criança nasceu, Nanã a carregou nos braços e entregou-a ao seu primeiro filho, um homem velho, coberto de palhas. A menina foi vencendo então a morte, sobre os ombros curvados do seu pai. E virou uma moça mais voluntariosa do que cabia, exigindo para si uma beleza e graça e destreza de fêmea, que Omolú não saberia lhe dar. Coube então a Iansã, por quem seu pai sentia muito apreço, os cuidados daquela que já havia se tornado uma mulher. Mas Nanã, com a ação silenciosa das avós, continou ao seu lado, quieta e presente.
É por isso que ela precisa da quietude, porque sua alma foi feita da lama que mora no fundo das águas paradas. É a neta de Nanã! Não luta com a espada, como faria a que se tornou sua mãe. Assim como a avó, dispensa os metais, também prefere fazer sua oferenda, que é à vida, usando a força e a destreza das próprias mãos.
E agora segue, se confundindo entre ser a esposa de Oxalá, a grande matriarca, ou a mulher vigorosa de Ogum e Xangô. Ás vezes grita, às vezes cala. Mas sempre prefere voltar para as suas águas escuras e paradas. É ali que ela encontra força.
E ela só consegue nascer, quando morre.
Depois do trauma tudo se refaz, em silêncio: a pessoa, a aldeia, a natureza do pássaro.
Em algum momento alguém dirá: Pássaro! e será, novamente, dono do pássaro.
E ela só consegue nascer, quando morre.



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