A amiga sussurra “a vida demanda coragem” enquanto me entorpece de tardes e alegrias marítimas.
Ensina lições de si mesma, domina certa magia que a permite deduzir meus improváveis mistérios, sente bondade enquanto vibra essa inteligência que coisa viva precisa ter para manter-se viva.
A amiga é o pássaro que abre suas asas, é o mar e tudo que está sob as asas do pássaro, é o próprio verão com mil pássaros suspensos no ar.
É infinitamente maior e menor que tudo isso.
O sorriso se abre como uma barbatana que rasga a superfície da água deixando um rastro de espuma branca.
A felicidade é uma ordem natural, uma lei, uma sagração.
Quando acordou na casa escura e cheia de pó sentiu seu corpo vivo pela primeira vez em muito tempo, talvez estivesse nascendo naquele momento. Notou que estava cega, percebeu que estava nua, sentiu que estava com os joelhos, a barriga e o rosto arranhados, mas estava encarnada. Era vida, abafada pelos escombros.
No escuro, a chuva já se anunciava por cima dos muitos quilos de entulho e céu e foi justamente quando a água desceu iluminada e barulhenta que ela conseguiu se libertar. A luz do mundo invadiu a escuridão da casa, ou a escuridão da casa, talvez, tenha invadido a luz do mundo, o fato é que ela pôde sair.
Na claridade, já não era cega.
Quem a visse passar depois de tanto tempo trancada, ainda atordoada de luz, pensava se tratar de um bicho novo, desses fortes que surgem para sustentar o mundo.
Ela caminhou sob a chuva e se sentia quanto mais limpa, mais forte.
“É o seu corpo que precisa falar agora”, pressentiu e sob a chuva dançou um sofrido ballet contando as histórias do cárcere e de sua inocência perdida.
Em seguida, correu para o terreno das árvores frutíferas. Entre frutas fez-se uma pergunta e não obteve resposta. No silêncio dessa dúvida a nova casa foi construída. Seu consolo é aquele que diz: Não há respostas.