Se você me quisesse, se você me pedisse, se você voltasse no meio de uma manhã azul, se você me ouvisse quando eu te dizia que a vida, Luzia, não passa de um dia, mas você foi embora e me deixou esperando na beira do cais com um poema de amor pendendo da minha mão cansada de segurar minha cabeça que até aquele dia só pensava que se você me quisesse, se você me pedisse, se um dia você voltar, se você me quiser, eu ainda diria sim, eu direi sim, diria sim, pra sempre, sim.
Já não sou aflita, nem nada. E volto entre frutas, deixando pra trás os verões que perdi. Esse é o tempo de olhar pra frente. Quem estiver no barco que ajude a remar.
Eu troco de pele pra bem no meio de mim descobrir quem eu sou. Sem medo de cair.
O rio que fazia uma volta atrás de nossa casa era a imagem de um vidro mole que fazia uma volta atrás de casa. Passou um homem depois e disse: Essa volta que o rio faz por trás de sua casa se chama enseada. Não era mais a imagem de uma cobra de vidro que fazia uma volta atrás de casa. Era uma enseada. Acho que o nome empobreceu a imagem.
"Aquilo que define a realidade de uma sala, por exemplo, é o espaço vazio delimitado pelo teto e pelas paredes, não o teto e as paredes em si. A utilidade de uma moringa de água está no vazio onde a água pode acomodar-se, não na forma da moringa, nem no seu material. A vacuidade é todo-poderosa poque ela pode conter tudo. Somente no vazio o movimento torna-se possível. Todo ser capaz de fazer de si mesmo um vazio onde os outros possam livremente penetrar, pode tranformar-se no mestre de todas as situações. O todo sempre dominará a parte."
("Livro do chá" de Tenshin Okakura / citação em "Um ator errante" de Yoshi Oida)