Olinda

(Alceu Valença)

 

Olinda

Tens a paz dos mosteiros da Índia
Tu és linda
Prá mim és ainda
minha mulher
calada
O silêncio rompe a madrugada
Já não somos aflitos nem nada
Minha mulher
Tu voltas
Entre frutas, verão e tu voltas
Abriremos janelas e portas
Minha mulher

 

"... ao passo que amar eu posso até a hora de morrer. Amar não acaba."

 "E considerou a cruel necessidade de amar.
Considerou a malignidade do nosso desejo de ser feliz.
Considerou a ferocidade com que queremos brincar.
E o número de vezes em que mataremos por amor".

(Clarice Lispector)

 

Quando escrevo pergunto: pra onde?

 

O Cão.

 

 

Não esperava a surpresa, mas um dia o pai entrou em seu quarto carregando uma bolota peluda e arfante.  O pai não notava sua habilidade de ver coisa viva e dizer: "minha!", mas agora passava para o filho a responsabilidade de ser criatura humana: saber possuir. O animal era propriedade do menino.

“Meu cachorro”, e uma coceira de prazer lhe subiu pela garganta. “Meu!”, ele disse e o cão latiu. Possuir era bom.

O animalzinho queria se deter em muitas folhas e cheiros que achava na calçada, mas era arrastado para a sua primeira exibição pública no parque. Enquanto todos os meninos se dedicavam às suas posses coloridas e mortas, ele teria um brinquedo vivo. Seria o único. Todos o olhariam com aprovação e inveja. Menos Teresa. Teresa desdenhou o cachorro e, para os seus olhos, ela olhou com firmeza. Mas os olhos do menino não são propriedade, são só duas coisas acesas. O que será que ela buscava? Alguma coisa maior que uma vida de cão? O olhar da menina corria. O cachorro voltou a ser um habitante do mundo e já não tem dono, vai brincar com as folhas que o vento arrasta na calçada, cujo domínio ninguém reclama e que é de todos. 

 

 

 

Pintura de Isaak Levitan.

 

(Caetano Gotardo sempre me mostra as coisas lindas.)

 

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