"Sete horas de uma noite de sábado na rua Haddock Lobo. Um ônibus pára e apanha cerca de trinta passageiros que pagarão vinte reias pela viagem. Uma hora depois de circular por algumas ruas da cidade (sem parar em nenhuma delas), o ônibus volta ao ponto de partida e de lá descem os mesmos passageiros, trinta cândidos sorrisos atravessando a rua. Eu também não entendi até comprar minha passagem. Logo descobri tratar-se do Cordel do Amor sem Fim, primeiro trabalho da Trupe Sinhá Zózima, que não está em cartaz nos palcos de nenhum teatro, mas nos assentos, ou melhor, no corredor, de um coletivo. A idéia de encenar uma peça num veículo não é propriamente nova. Este ano ela já foi explorada pela Companhia Satélite em Os Dois Lados da Rua Augusta; e pelos Parlapatões em O Pior de São Paulo. A Trupe Sinhá Zózima, porém, inova na abordagem. Em primeiro lugar, não se trata de um espetáculo de humor, algo que talvez justificasse mais facilmente um teatro que se movimenta e até obedece ao sinal; depois, o que é visto das janelas interfere apenas indiretamente no que vemos acontecer ali dentro: uma viagem a um ambiente completamente diferente daquele que se desenha no asfalto da metrópole. A partir da história de três irmãs que tropeçam numa quadrilha em que dois homens disputam por um único par, o Cordel do Amor sem Fim é desfiado ao som da viola e da linguagem caipira. Impressiona a composição do cenário, que aproveita delicadamente cada corrimão, e por vezes nos faz esquecer que estamos andando sobre quatro grandes rodas. O ritmo do espetáculo tira proveito dos eventuais solavancos e a marcação dos atores (até quando cambaleante) é precisa e surpreendente, dando ao espectador, esteja ele nas primeiras ou nas últimas fileiras, a exata noção do que ocorre em cena. Pena é não haver uma Sinhá Zózima para cada ônibus paulistano. Além do teatro ir até quem o pertence de verdade, o povo, provavelmente pensaríamos duas vezes antes de dirigir nossos próprios carros."
 
Tiago Germano.
 
 
P.s - A admiração que eu sinto por eles é coisa que não tem medida.
 
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