Corre calma, severina noite
De leve no lençol que te tateia a pele fina
Pedras sonhando pó na mina
Pedras sonhando com britadeiras
Cada ser tem sonhos à sua maneira
Cada ser tem sonhos à sua maneira

Corre alta, severina noite
No ronco da cidade, uma janela assim acesa
Eu respiro o teu desejo
Chama no pavio da lamparina
Sombra no lençol que te tateia a pele fina
Sombra no lençol que te tateia a pele fina

Ali, tão sempre perto, e não me vendo
Ali sinto tua alma a flutuar do corpo
Teus olhos se movendo, sem se abrir
Ali, tão certo e justo e só ti sendo
Absinto-me de ti, mas sempre vivo
Meus olhos te movendo sem te abrir

Corre solta suassuna noite
Tocaia de animal que acompanha a sua presa
Escravo da sua beleza
Daqui a pouco o dia vai querer raiar
Daqui a pouco o dia vai querer raiar...

Lula Queiroga

 

 

 

Ele.

 

Eu não me arrependo de toda a (inútil) sabedoria que não acumulei durante o tempo em que eu estava no exercício de te amar. Aquela época em que todas as pessoas que passavam por mim pensavam que eu estava sentado naquele banco infeliz desperdiçando a minha vida e, no entanto, eu estava te amando, eu estava te imaginando entre meus braços.  E isso tomava meu tempo. Te amar me consumia. Era uma tarefa lenta, quase árdua em seu arrastar-se, mas era doce. Era quente e espesso. Tinha o sabor de todos os anjos, era como lamber suas pernas, deitar encolhido nas suas asas.

 

E me tomava o dia inteiro.

 

 

 

Ela.

 

Eu nunca pude deixar de notar a sua intensa admiração. A sua admiração, o seu afeto, o seu desejo e essa junção de sentimentos inomináveis e poderosos que chamamos, todos eles, reunidos, de amor. Eu sempre soube. Eu sempre percebi. Eu notava que o que você sentia era, ridiculamente, incontrolável. Eu via o seu esforço de tentar permanecer calmo diante de mim e o quanto ele era patético e inútil. Suas mãos se fechavam vazias enquanto você olhava as minhas pernas, nesse momento você virava o rosto, você evitava me olhar novamente, você evitava olhar a minha boca enquanto eu falava, como se a presença do meu corpo fosse mais intensa do que tudo que você aprendeu sobre o que há de certo e o que há de errado, sobre os abismos que existem entre o querer e o poder. Quanta obscenidade eu via em seus olhos, quanta capacidade de ser bom por mim, de ser bom pra mim, de ser forte por mim, de ser fraco comigo. Era explícito, era notório. Todos viam.

 

Hoje eu me pergunto quanto tempo você deve ter perdido, sentado naquele banco infeliz, imaginando ter de mim o que eu nunca te dei, o que eu nunca pude dar.

 

O Elogio da Sombra.

A velhice (tal é o nome que os outros lhe dão)
pode ser o tempo de nossa felicidade.
O animal morreu ou quase morreu.
Restam o homem e sua alma.
Vivo entre formas luminosas e vagas
que não são ainda a escuridão.
Buenos Aires,
que antes se espalhava em subúrbios
em direção à planície incessante,
voltou a ser La Recoleta, o Retiro,
as imprecisas ruas do Once
e as precárias casas velhas
que ainda chamamos o Sul.
Sempre em minha vida foram demasiadas as coisas;
Demócrito de Abdera arrancou os próprios olhos para pensar;
o tempo foi meu Demócrito.
Esta penumbra é lenta e não dói;
flui por um manso declive
e se parece à eternidade.
Meus amigos não têm rosto,
as mulheres são aquilo que foram há tantos anos,
as esquinas podem ser outras,
não há letras nas páginas dos livros.
Tudo isso deveria atemorizar-me,
mas é um deleite, um retorno.
Das gerações dos textos que há na terra
só terei lido uns poucos,
os que continuo lendo na memória,
lendo e transformando.
Do Sul, do Leste, do Oeste, do Norte
convergem os caminhos que me trouxeram
a meu secreto centro.
Esses caminhos foram ecos e passos,
mulheres, homens, agonias, ressurreições,
dias e noites,
entressonhos e sonhos,
cada ínfimo instante do ontem
e dos ontens do mundo,
a firme espada do dinamarquês e a lua do persa,
os atos dos mortos,
o compartilhado amor, as palavras,
Emerson e a neve e tantas coisas.
Agora posso esquecê-las. Chego a meu centro,
a minha álgebra e minha chave,
a meu espelho.
Breve saberei quem sou.
        

                                                                                Jorge Luis Borges.

(Na categoria "Gênios que assustam, grandeza que dá vertigem.")

 

 

 

Como Almodóvar.  

 

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