Nova Sampa - De braços atados.
O vendedor da BMW de São Paulo me perguntou se havia necessidade de circular por Salvador em um carro blindado. Eu lhe respondi que não, que em Salvador a maioria dos assaltantes abordam as suas vítimas usando badogues. Por coincidência, eu conheço a história da BWM, eu seria capaz de vender uma BWM melhor do que ele. Eu sei, também, que toda a tecnologia da BWM é bastante eficaz para evitar acidentes nas estradas alemães, mas que em São Paulo, ou em Salvador, todos aqueles computadores se tornam obsoletos porque nós não podemos acelerar tanto os nossos carros. As estradas brasileiras não são pistas de corrida. A nossa segurança se resolve tentando evitar que a galera encha a cara de cerveja e blindando os vidros. Ou não. Logo que eu cheguei em Salvador houve um tiroteio na porta do prédio em que eu estava. Quando eu desci (achando que os estalos haviam sido fogos de artifício do São João recém passado) a polícia invadia o prédio, munida de metralhadoras. Meu corpo não é blindado. Minha emoção não é blindada. A cidade não é blindada. Ainda bem. Por quê o justo é que todos vejam e sintam o desespero. Os que andam de carro e os que andam de ônibus.
Eu entendo o mundo filho-da-prática. Eu conheço os Estados Unidos, São Paulo, as cidades, o capitalismo, o dinheiro, as relações de compra. Eu vejo a tv, os documentários, os jornais (eu ouço falar), eu presto atenção quando os advogados falam, quando os marketeiros falam, quando os favelados falam, quando Bush fala, quando os ingleses falam.
Num sentido global, eu acho que eu vou achar até bonito que a humanidade fique torrando junta daqui há dez, vinte anos. Vai ser a última coisa que atingirá a todos, como irmãos: o calor.
Eu vou fazendo a minha migalha diária e ela é tão pouca. Eu vou tentando aumentar essa migalha, diariamente, e ainda é tão pouco. Eu tenho que estar bem e lúcida (se a cabeça da gente se desorganiza ela espalha dor e aí cada pessoa é um tsunami) e isso já é tão difícil. Eu tenho que me defender das cabeças desorganizadas e infelizes que cruzam o meu caminho, eu demorei tanto tempo para aprender a me defender das coisas.
Eu quero que as pessoas que têm mais capacidade de realização do que eu, realizem. Se eu escrevo, se eu canto, se eu interpreto, se eu falo posso falar o que eu sinto, eu gostaria que houvesse vários homens como Chico Mendes na Amazônia (tantos que não seja possível assassinar todos).
Ou então deixa torrar, vamos torrar juntos, ou me matem antes por um tênis. O meu não será Nike, podem ter certeza.



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