Não sabia que mundo de silêncio era o que habitava, antes. Não sabia de quantos “nãos” se construíra aquele silêncio. Não sabia o quanto ela mesma havia calado até que tivesse desaprendido a ouvir.  Sabia, no entanto, que até aquela noite estivera surda. Surda no telefone ouvindo Marisa falar mal do marido, surda ouvindo a novela, ouvindo o rádio, discutindo no mercado, no ponto, na feira.

 

 Naquele momento a música entrava pelos seus ouvidos e ela consentia. Conceder, permitir, voltar a atenção para um som, lhe pareciam coisas possíveis. Até aquele momento, esperar, como ela mesma tantas vezes esperou, que uma outra pessoa, tão imensamente distante, desconhecida e atarefada, vá, por um algum tempo, colocar a sua atenção em alguma coisa que ela, ou qualquer outra pessoa, tenha a dizer, lhe soava por demais pretensioso.   

 

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