"Por seres tão inventivo e pareceres contínuo

Tempo, Tempo, Tempo, Tempo és um dos deuses mais lindos."
 

 Aniversário.

Quando nós somos bebês, somos a nossa mãe.

Depois somos nós, mas também somos muito a nossa família. Passamos manhãs e tardes desenhando a nossa família na frente de uma casinha vermelha com um sol bem bonito (ou perguntando: Mãe, por quê papai foi embora? Vovó vai voltar do céu?) e vestidos de coelhos, corações, bandeiras do Brasil decidimos, a cada vez que mamãe ia nos pegar na escola (ou a babá, ou o papai, ou o adulto responsável) que não havia lugar melhor que aqueles braços. 

(E quem não tem adulto responsável?)

Na adolescência nós somos a horda. Papai e mamãe não são tão legais assim e aquela casinha da infância não é mais tão vermelhinha. Talvez papai já tenha traído mamãe. Talvez mamãe seja viciada em crack. De qualquer forma, papai e mamãe não entendem nada, o mundo ficou maior, o mundo agora são os "amiguinhos", que é como papai e mamãe chamam as pessoas que você agora MAIS AMA NO MUNDO! E você os ama porque você quer fazer sexo e elas podem te ajudar, você quer experimentar tudo (talvez não haja tempo), você precisa ser aceito, você ainda não está bem certo de quem é você e há a nítida sensação de que você é uma merda. Na adolescência tudo é grave, todos os amores são os maiores, todas as amizades serão eternas e uma palavras fora de lugar pode promover o fim e o cabo do mundo. Os adolescentes se unem, em hordas. Pelo amor adolescente, os jovens matam os pais, o grupo incendeia o índio, a empregada doméstica é estuprada. Eles só se importam com o grupo, com a horda. O pai, o mendigo, a sociedade, nós estamos de fora, nós somos quem paga pela diversão, ou a diversão em si.  Fazemos parte da espécie "adulto", tudo que o adolescente quer ser, e eles nos copiam como os leõezinhos aprendem a caçar com suas mães. Evite fumar na frente de seu filho, evite ser um sacana na frente de seu filho, evite ter filhos. É menos chance de termos um psicopata no futuro.  

A adolescência não é uma época de muitas amizades entre pais e filhos. O dever do filho é testar limites, o dever do pai é impor limites. É preciso ter adquirido uma certa confiança daquela pequena criatura para que quando você diga: Se eu estou te PROIBINDO (sim, os pais podem proibir) de experimentar cocaína na casa de seu amigo roqueiro, cair na piscina nua, ter a sua primeira experiência homossexual e voltar pra casa com aids sendo que você tem prova amanhã, é porque eu sei o que é melhor pra você; ela tenha uma certa desconfiança que você sabe o que você está fazendo. E É MUITO BOM QUE VOCÊ SAIBA.   

Se você sobreviveu até o fim de sua adolescência e não está lendo esse blog de um manicômio ou de uma penitênciária é porque, de certa forma, você fez um bom trabalho e fizeram um bom trabalho com você, aqui eu assiná-lo o caráter espiritual que se confere à palavra trabalho, aqui na Bahia.

Eu sobrevivi. Já fui minha mãe, já fui minha família, já fui minha horda. Agora, bem tarde, como tudo foi tarde depois que minha mãe morreu cedo, eu descobri que eu sou que nem Caetano: Eu sou só eu, só eu , só eu... 

Dia 23 de maio marca o dia que eu nasci, mas eu não cresço conforme essa data.

Um dia eu me olhei no espelho e pensei:

- Vixe! Virei um indivíduo!

Naquele dia eu dei uma festa.  E celebrar precisa ser um ritual diário, uma religião.  

 

[Jovem japonesa com bonsai]. S.l.d.
Fotografia sobrepintada, p&b, 14 x 9 cm.

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