Outros demônios.

De todos os demônios que habitam o peito do homem o maior e mais forte é o ódio. Ele tem muitas faces e muitos nomes, seu rosto está nos museus, seu nome está nas bibliotecas. O nome mais bonito em português é Lúcifer, o anjo caído. Rebelou-se diante de seu oposto, Deus, o amor. Ainda assim construiu seu império de trevas, seu inferno, e quem já sentiu ódio esteve lá e sabe que é quente e arde, como Dante o descreveu. A flecha do ódio é negra, como a do ciúme, mas a sua ferida não é na garganta, o ódio cresce como pústulas nas entranhas.  É preciso lavar esse sentimento da alma (os orientais descobriram que o elemento que limpa uma alma é o oxigênio) com a mesma urgência com que é preciso deixar o inferno para trás e voltar ao paraíso, uma idéia que Sigmund Freud chamou de  "útero materno", um lugar belo e aconchegante, numa época em nós éramos puros e de onde fomos subitamente expulsos, porque assim foi preciso, para que se cumprisse o ciclo.

A culpa, o pecado, o erro, a maça, o remorso são outros demônios. São imensos e pesados os seus fardos, suas exigências, são injustos e traiçoeiros, como os demônios, mas com esses é preciso travar contato. Ficou decidido que seria preciso que muita coisa fosse proibida, como é proibido, pecado, vetado que uma mãe se deite com seu filho, para que o mundo funcione. Se um filho mata o próprio pai e se deita com a sua mãe o mundo experimenta a tragédia. É preciso que o filho e a mãe entendam que uma falha foi cometida. É preciso encarar esses demônios para que o mundo, esse mundo, siga em paz. Quando vemos assassinos, máquinas de matar, fisicamente incapazes como o aleijado não anda e o cego não vê, de sentir qualquer remorsos por seus atos, nós entendemos que as pontadas da culpa, apesar de entrarem nas carnes como agulhas, fazem sua parte em nos livrar da tragédia.   

No palacio da ignorância também mora um anjo: a inocência. Por isso que a ignorância, ainda que cega no seu palácio escuro, ainda que um demônio, tem um sorriso doce. Antes de qualquer informação convém perguntar: Do que me serve? O que foi cuidadosamente planejado para acontecer longe dos meus olhos e dos meus ouvidos deve permanecer longe. Longe se o marido é infiel lá fora, longe o que se fala por aí, longe o que há de podre no mundo e o mundo não quis me mostrar. Eu não quero saber. Para saber isso vai ser preciso matar um anjo, o preço é alto. Mas não se pode esquecer que a ignorância é um demônio e, como todo demônio, destruirá tudo o que toca. Por causa dela o filho se deitou com a mãe. O Oráculo disse a Édipo: Conhece-te a ti mesmo. Freud disse: Deita-te num divã. Não sejas um joguete na mão desse demônio que ele não sabe o que fazer de ti, ele te fará caminhar cego, como ele mesmo é, sem que saibas por que comes, por que amas, por que dormes, sem que saibas que a mulher com quem te deitas é a tua própria mãe. 

 

 

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