
Ignorância.



Há algum tempo eu só tenho escrito peças sob encomenda. Se por um lado isso me obriga ao exercício; se por um lado uma encomenda me obriga a caminhar por territórios fantásticos que eu, de livre e espontânea vontade, não caminharia; por outro lado ela me priva de escrever a minha peça, uma peça que obedeça somente às minhas necessidades.
Algo mudou na dinâmica do trabalho. Antes, não havia reuniões. Eu escrevia sozinha. Desde o último ano "reunião" é a palavra de ordem. E é bom. É muito bom que seja assim. Principalmente porque eu já entendi que haver reunião, haver o texto, não são motivos fortes o bastante para que haja montagem. Reuniões, pra mim, têm significado que eu terei uma peça nova dentro da gaveta. Minha função no processo eu cumpro. Mas eu não sei montar uma peça. Eu não sei levantar recursos. Não sei dirigir. Eu não sei, não sei se posso aprender. (Notem que eu não escrevi que eu não sei atuar. Talvez porque eu ache que é aí onde há menos mistério, não menos esforço. O fato é que eu olho para um diretor e penso: Isso é coisa do demônio. O ator é um irmão.)
Para muito além de encomendas, que são pra mim outra matéria prima, resta eu e minha dor. Existe a dor, que não foi encomendada. E minha sensibilidade está mais muda que uma recém-casada muçulmana para esta peça. Meu humor alterna entre a alegria e o cansaço e, nos dois casos, eu não tenho nada a dizer. Não em forma de peça.
A dramaturgia se torna um trabalho e não mais um desabafo. Como trabalho, paga muitíssimo mal. Mas me parece que eu vou continuar abrindo mão de minhas madrugadas por causa desse trabalho com a mesma abnegação que um bombeiro entra no World Trade Center em chamas, incompreendida, solitária e feliz no meu ofício, como devem ser as biblioteconomistas.
JOSÉ SARAMAGO