Amar um homem significaria oferecer-lhe cada lembrança do que sou.

Oferecer-lhe, por exemplo, aquela manhã em que nevava em um cemitério antigo e eu caminhava por entre os mortos, a memória de minha mãe, o segredo que eu guardei por sete anos, a força com que o homem cego, um dia, segurou o meu braço na rua.

Amar um homem significaria aprender o ofício minucioso de ser mulher, e, sendo mulher, saber calar e saber sofrer. Sendo mulher, amar um homem significaria tornar-se permanentemente triste porque essa é a natureza das mulheres e do amor.

Amar é perder o sadio medo da morte, perder o exaustivamente ensaiado senso de bons modos, perder o antigo e estimado amor à sua íntima solidão, que é a verdadeira pátria, perder o hábito de fazer as coisas para si, perder tudo como se, somente perdendo tudo, fosse possível ganhar alguma coisa invisível.

Amar um homem significaria amá-lo em consumição, como quem adoece da carne.

Amar um homem significaria deixá-lo, para que do meu amor o homem provasse tudo. O meu consentimento e a minha ausência.  

 

 

 

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