O doido é o que está mais só. O doido enxerga gigantes onde os outros só enxergam moinhos. Ninguém escuta a música obscura e sinistra que ressoa dentro da cabeça do doido. O doido fala sozinho. O doido rasga dinheiro. O doido come cocô. O doido faz coisas que ninguém mais faz. Ninguém pode navegar o barco que vaga nas imensas águas escuras do doido. O doido toma choque. O doido grita pelas ruas. O doido toma remédio. O doido mata. O doido come gente.  

 

 

Borat - O Segundo Melhor Repórter do Glorioso País Cazaquistão Viaja à América.

 

"Baron Cohen, cujo filme disputa o Oscar na categoria de melhor roteiro adaptado, recusou o convite da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas para ser apresentador, segundo a entidade."

Terra - Cinema

"...em sua base está algo que os brasileiros conhecem bem: a exploração da vergonha alheia, com a criação de situações constrangedoras para os participantes desavisados. Para quem gosta de Silvio Santos e Repórter Vesgo, Borat é ainda melhor".

"Os políticos e a democracia, as feministas, os tradicionalistas do sul, as fraternidades estudantis, os judeus (ele, oriundo de uma família de judeus ortodoxos), os protestantes e tantos outros não escapam das perguntas e do comportamento um tanto estranho (supostamente natural no Cazaquistão, cujo governo protestou) do jornalista".

Jornal Folha de São Paulo.

O quê o Reporter Vesgo, Sílvio Santos e Márcia fazem, na televisão brasileira, é pegar um cidadão comum, comunicar-lhe uma tragédia (você está sendo traído, você perdeu o emprego, você vai perder sua casa) filmar o desespero da pessoa e depois, enquanto o marido/irmã/melhor amiga da participante sai de baixo de uma mesa e lê uma carta amorosa num fundo musical bizarro, alguém da produção comunica que ela ganhou um freezer, fazendo com o telespectador presencie, na mesma atração, um ser humano passar do mais profundo desespero para a mais silenciosa catatonia e daí para uma explosão de festa e alegria sincera, tudo isso em quinze minutos. Um amiga me disse que, numa brincadeira dessa, um velhinho infartou. 

O filme Borat não faz isso.

Borat esculhamba tudo que um dia podia ter sido, e que nunca foi, a cultura do Cazaquistão.

O presidente Nazarbayev foi reclamar com Bush. Os cazaques precisaram de quatro páginas do New York Times para tentar explicar ao mundo que lá os carros não são puxados por cavalos e que eles não dançam feio daquele jeito. O Ministro do Exterior declarou que o ator Sasha Cohen faz parte de uma organização política para destruir a imagem do Cazaquistão perante o mundo. Nazarbayev jurando processar até a mãe de Cohen antes mesmo do filme ser lançado. Os cazaques eufóricos porque estão aparecendo no cinema (não estão, as cenas "cazaques" foram gravadas na Romênia).  Depois do estrondoso sucesso do filme, o Cazaquistão alcançou o posto de "o lugar mais legal/engraçado do mundo". Nazarbayev convidou Sasha Cohen para uma visita ao país, onde ele hoje é quase um herói.   

 O que Borat faz é expor ao ridículo "os políticos e a democracia, as feministas, os tradicionalistas do sul, as fraternidades estudantis, os judeus (ele, oriundo de uma família de judeus ortodoxos), os protestantes e tantos outros". Essa gente que se leva a sério, que não sabe rir de si mesma (e só por isso o filme é tão engraçado), essa parte pervertida, doente e assassina da sociedade americana.

Os americanos não sabem lidar com o imprevisto, não têm benevolência com os malucos, pensam que o mundo está sob controle, processam uns aos outros, confiam no governo, acham que as coisas funcionam, se organizam, discutem, levantam os punham e gritam "vamos acabar com eles", têm direitos e deveres, têm programas governamentais para tirar os pedintes das ruas, e se no meio disso tudo um repórter do Cazaquistão solta uma galinha no metrô, ou um afegão derruba dois prédios em Manhattan, eles ficam um pouco atônitos. Cadê o chão que estava debaixo dos meus pés?

Os latino-americanos, que são uma ferida rica e aberta, os africanos, que, invisíveis, não são nada e os europeus, que passaram por duas guerras e sabem muito bem o que é ver prédio caído misturado com prédio inteiro e ter que reconstruir pedra por pedra o que foi uma civilização e não apenas duas grandes torres de escritórios, sabem que o chão nunca esteve abaixo dos pés de ninguém. Que nenhum país é invencível, que pobre do país que precisa de heróis, pobre do país que precisa do super homem.

Algumas instituições americanas se baseiam num tripé de prepotência, babaquice e hipocrisia, o que as transforma numa grande piada. O que Borat faz é contar essa piada para o mundo. E ela é hilária.

Talvez o Oscar seja uma dessas instituições e por isso Sasha Baron Cohen recusou o convite de participar da cerimônia...

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