Minha casa.
Saí da casa de meus pais sozinha, de tarde, chorando. Quis atravessar o Corredor da Vitória deitada em cima do meu colchão, mas Denivaldo (o rapaz que me ajudou com a vinda da cama e com todo o resto) teve medo da polícia parar o caminhão. Hoje eu penso que eu deveria ter vindo assim, deitada na minha cama conversível.
Eu me mudei para o apartamento, que hoje é minha casa, em 31 de outubro de 2005. Me lembro o dia exato. Teve uma festinha.
A primeira vez que eu entrei no apartamento vazio, acompanhada pelo corretor, eu quase não vi nada. Tive a impressão que o chão da sala era preto, que havia uma parede amarela e outra vermelha.
Da segunda vez, eu tive certeza que o chão da sala era de granito preto, que havia mais degraus na sanca do teto do que espinhos na coroa de Cristo, que as paredes tinham cores dadaístas, que havia duas pilastras greco-romanas na sala de jantar e que bichos ainda não classificados pela ciência seriam encontrados dentro dos armários. Derruba tudo, pinta de branco. Ficaram os armários do quarto. Ficou o granito. Granito preto no chão da sala. Nada a ver com a linha indiano-egipto-mineiro-marroquina que eu gosto.
Demorou algum tempo até que eu pudesse chamar de casa algum lugar em que meu pai não estivesse.
O granito preto me incomodou por mais de um ano até que no mês passado eu resolvi o problema com Durafloor. Há mais ou menos um ano que meu pai diz que colocar um piso laminado, fudido, por cima de um granito vai ficar “uma bosta”. Ficou ótimo.
O quarto da minha adolescência não existe mais.
Havia formas de vida fascinantes debaixo dos tacos velhos das dependências de empregada e atrás dos espelhos embutidos nos banheiros e no lavabo. É um alívio poder trocar o velho pelo novo, o imundo, o sujo, o fétido, pelo novo. É por isso que eu faço análise: pra que nenhum bicho se esconda dentro de mim.
Eu tenho uma incrível e completíssima coleção de ursinhos carinhosos.
Ontem à noite, uma nuvem de cupins saiu do armário e ficou nos sobrevoando. O armário será trocado no começo de março. Ate lá, esse tipo de coisa acontece.
Hoje de tarde, uma linda tempestade se aproximava da cidade. Vinha pelo mar, eu via. Me lembrei de uma vez que eu me perdi numa tempestade, no mar, numa daquelas motos náuticas. Comecei a pensar nesse encontro com a chuva, em desorientação, pensei em escrever uma peça, pensei em escrever no blog, até que a chuva chegou e começou a inundar o apartamento, as janelas fechadas, mas a esquadria velha, tudo uma merda, parecia que estava chovendo dentro da porra da casa.
Talvez essas paredes venham a ser as testemunhas de minha felicidade. Essa gota diária.
Agora de noite, não se vê nada, mas o mar está lá, imenso.
Amanhã, outra viagem.



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