Há quem diga que em todo cliché há um fundo de verdade.
Carmem Miranda associou a imagem do Brasil a bananas de forma irreversivel e junto com o papagaio da Disney, o Zé Carioca, transformou o Brasil em um paraíso tropical, exótico e alegre, habitado por malandros e mulatas, onde tudo é samba, macacos e frutas nas cabeças.
O estereótipo do Brasil e do brasileiro, apesar de não ter se afastado totalmente do furação de vigor, alegria e brejeirice que era Carmem Miranda, foi construído, no cinema, por artistas que, de formas diversas, amaram o Brasil. Mesmo os que nunca pisaram os pés aqui. Em um levantamento para o documentário "O Olhar Estrangeiro", que reflete sobre a imagem que os "gringos" têm do Brasil, a diretora Lúcia Murat catalogou mais de 200 produções internacionais que têm o Brasil como tema. É natural que em mais da metade deles os brasileiros falem espanhol, andem nús, morem em árvores, sambem pelas ruas e comam bananas o tempo inteiro.
Mas a verdade é que até a realização do filme Turistas, do americano Jonh Stockwell, o Brasil havia sido mostrado para o mundo, no cinema, pela ótica de quem amou o país.
O brasileiro, no cinema, era "uma festa, uma graça, um rodopio", como o filme Macunaíma, segundo Carlos Drummond; era movido pela fé cega, faminta e nem por isso menos forte do Pagador de Promessas, era o mambembe esculachado de Bye Bye, Brasil. O Brasil era o lugar paradisíaco, irreal, que o americano Stanley Donen enxergou, em Blame it on Rio. Já filmes como Pixote, Deus e o Diabo na Terra do Sol e Central do Brasil redimiram os pecados do nosso desespero tropical e o morro carioca apareceu sempre envolto na mística ou do samba, como em Orfeu Negro, ou da violência, como na mais recente produção brasileira que deixou a crítica internacional de joelhos, Cidade de Deus. Alguns retratos mais nítidos, outros mais romantizados, mais irresponsáveis, todos esses filmes conquistaram o público e a crítica internacional mostrando um Brasil intrigante, um país que o mundo do cinema amou ao ponto de o premiado "Brazil", produção americana que critica o Estado e burocracia, ter esse título, unicamente, porque o diretor Terry Gilliem via o Brasil "como um sonho distante".
Tudo isso até o filme Turistas resolver transformar o sonho em pesadelo.
O Brasil já tinha tido a sua imagem levemente comprometida, anteriormente. Afinal, nenhum país gostaria de ser a residência fixa de uma cobra gigante devoradora de gente e a Anaconda do cineasta peruano Luis Llosa era brasileiríssima.
Mas Anaconda não pegou tão mal. Turistas parece ser um filme como o terror O Albergue, do americano Eli Roth, que lançou uma maldição sobre o país onde foi filmado. É um filme que queima o filme.
As comparações entre os filmes Turistas e O Albergue parecem ser inevitáveis e partem tanto dos críticos quanto do público. A repercursão que o Albergue trouxe para o Leste Europeu, para toda a região e não só para Bratislava, cidade onde o filme se passa, foi catastrófica. Coincidentemente, eu estive no Leste Europeu algum tempo depois de ter visto O Albergue com algumas amigas, contei com a preocupação de uma delas: "Pelo amor de Deus, cuidado com os albergues!" A repercurssão do filme presenteou o Leste da Europa com a aura de lugar onde coisas bizarras acontecem em albergues não menos bizarros. A propaganda não foi boa. Mas a bem da verdade é que não é muito difícil imaginar uma carnificina naqueles becos decadentes ou dentro dos banheiros suspeitíssimos de restaurantes não menos assustadores.
O poder que Hollywood, e a mídia de forma geral, tem de revelar paraísos terrestres transformando-os em "booms" turísticos pode acabar jogando areia no brinquedo. As ilhas Phi Phi, na Tailândia, cenário paradisíaco de A Praia, com Leonardo DiCaprio, recebeu um volume tão grande de turistas depois do lançamento do filme, que hoje encontra-se qualquer coisa por lá, menos paz e tranquilidade. No Brasil, depois que Vera Fisher e Carlos Alberto Ricceli se beijaram debaixo d'água na minissérie Riacho Doce da Rede Globo, Fernando de Noronha nunca mais foi a mesma. O Ibama teve que mandar fechar o Buraco da Raquel (quem viu, viu, quem não viu, não verá mais) e passou a existir uma lista de espera para entrar na ilha.
Assim, realmente, é desagradável.
Mas é ainda mais desagradável passar por esquisitão.
Conversando com um recepcionista de um hotel em Paris, que nunca esteve no Brasil, travamos um diálogo que, vagamente lembrado e porcamente traduzido, foi mais ou menos este:
Eu - O problema é que lá o ensino público não é bom.
Ele - E tem o problema com os turistas.
Eu - Que problema com os turistas?
Ele - Que as pessoas matam os turistas, para tirar os orgãos...
(Segue no post abaixo)



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