Eu sou formada em interpretação teatral.
Se uma pessoa é formada em medicina assume-se que ela sabe curar um doente.
Então, partindo dessa premissa, talvez eu devesse saber "atuar". E sei. Essa é a questão.
Eu chego em um ensaio completamente verdadeira e natural, espontânea e presente, inteligente e capaz de me emocionar com o mundo e de emocionar o mundo, mas quando um diretor coloca um texto nas minhas mãos e pede que eu o leia, como por MILAGRE a DESGRAÇA se dá: EU COMEÇO A FAZER TEATRO! Minha voz se torna robótica, eu deixo de agir naturalmente, eu já não penso no que eu digo, eu já não sinto o que eu digo e um sotaque estranho vem dos confins do inferno e toma conta da minha voz.
Em qualquer escola de interpretação desse país um diretor sabe quando dois atores estão apenas conversando, ou quando eles estão ensaiando uma "cena".
É um engano pensar que a dissimulação deve ser uma característica do ator.
O ator, o ator de mesmo, precisa ser verdadeiro.
O espaço da atuação, da dissimulação, da inverdade, da interpretação, é o ambiente social. São as reuniões sociais, as festinhas. Aí é que há espaço para o necessário ato hipócrita. Mas no palco é preciso fazer de verdade. É preciso sentir a curiosidade genuína antes de fazer uma pergunta, é preciso sentir o medo verdadeiro, o desejo verdadeiro, o desconforto verdadeiro, o prazer verdadeiro.
Eu não quero assistir truque, eu não quero ver mágica.
Eu quero ver uma história sendo contada de verdade, diante dos meus olhos, ao vivo. É por isso que o teatro é tão imensamente poderoso. É a única arte que nos dá a chance de presenciar em tempo real e imediato desde um assassinato a um casamento, desde a um cena de terrível humilhação a um briga de família vulgar. Sem que haja NADA nos distanciando do babado. Somos apenas nós, os atores, e coisas acontecendo diante dos nossos olhos.
E depois que nós descobrimos que podemos ser sinceros sem morrer, não há motivos para fingir, para fazer truques.
Mas é preciso essa inteligência divina e essa coragem desesperada para abraçar a verdade da cena. Quando um ator, quando eu encontro algum colega que sabe fazer isso, que foi treinado para saber fazer isso (eu que fui treinada para ser medrosa) eu percebo que esse é o único caminho possível.
(Tem mais de um ano que nós andamos tanto e avançamos tão pouco. Mas esse pouco é tão nosso e tão irreverssível. Como uma janela que se abriu e nunca mais vai se fechar. )



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