Aquela Nuvem.

 

Gilliard

Aquela nuvem que passa lá em cima sou eu
Aquele barco que vai mar afora sou eu
Aquela folha que vaga pelas ruas sou eu
Buscando você.
Como eu queria ser
esse sol que lhe queima
essa roupa que cobre o seu corpo
o vento que lhe possui
essa água que banha você.
Só assim eu poderia me aproximar de você
sem precisar confessar o  que eu  tento 
esconder e sofro e
não é direito e venho fazendo tudo
pra ninguém saber.

 

Eu já entro nos sites de decoração da Itália e dos Estados Unidos pensando: Vá sofrer, desgraçada!

E eu sofro. MOINTO.

 

Carta para Sara Kane, que já não está.

Sara,

Hoje eu fui assistir uma montagem de Psicose 4:48, peça sua, que aconteceu aqui em Salvador, minha cidade.

Você, que é o expoente máximo da dramaturgia contemporânea da Inglaterra. Você, que se matou.

Há dois meses atrás eu estive na Inglaterra e pensei que se eu morasse lá eu, talvez, também morresse.

Em Oxford vi uns africanos tocando tambor na rua, fui falar com um deles e nós dois choramos (Eu chorei muito, demais, depois, num banheiro público, queria voltar para um país onde os tambores, os atabaques, negros dançando na rua fizessem algum sentido e aí, na Inglaterra, nada disso faz sentido).

Na Inglaterra você faz sentido, mas você se matou.

Aqui nosso maior dramaturgo contemporâneo é Nelson Rodrigues e ele, coitado, apesar de tudo, era um cara mais bem humorado do que você conseguiu ser.

E na minha cidade, especificamente, desde que eu estou viva, a coisa mais estrondosa que o teatro já viu foi uma peça que se "A Bofetada". Eu mesma já devo ter visto essa peça bem mais de 50 vezes. É uma comédia absurda. Eu nem saberia explicar para uma inglesa o que é "A Bofetada".

Aqui, às vezes, a gente discute que há graça demais no teatro, que o público só busca o teatro para rir e, uma discussão puxando a outra (pode puxar, por mais que eu não concorde) a questão dos intelectuais, no meu país, é que o povo só pensa em carnaval e futebol. Isso é preocupante, por um lado. Mas, por outro lado, essa preocupação é melhor do que qualquer preocupação que você tenha tido aí, na Inglaterra.

Hoje, saindo do teatro, pensando em você que eu não conheci e nem vou (soube por um amigo que uma amiga sua agradeceu a Deus quando você morreu porque teve fim o seu sofrimento, soube que o seu irmão ficou louco), eu me lembrei de uma época em que eu fui passar uns dias em Itaparica e foi tão bom, foi como uma salvação.  

Eu sei que se eu morasse na Inglaterra muito provavelmente eu morreria. Talvez se você morasse num país mais fácil, mais aprazível, com a possibilidade do mar, onde a alegria fosse essa coisa, assim, estupidamente, violentamente, inexplicavelmente banal, talvez, você também tivesse aprendido a viver.

Eu vi seu país. Os campos, os interiores, as cidades grandes e as pequenas e eu sei que por aí não se concede. Aqui nós vivemos num mundo de concessões. E um mundo infinitamente mais simples, mais pobre, mais quente, mais relaxado, mais colorido e mais sorridente.

Ia ter te feito um bem enorme ter alugado uma casa em Itaparica ou em Praia do Forte ou em Morro de São Paulo ou na Chapada (me dá até vontade de chorar imaginar todos os lugares que você nunca vai ver), pra ficar vendo o sol se pondo, as crianças correndo, o povo andando pra ir pra missa.

Se tem um lugar no mundo onde a vida pode PARECER simples, esse lugar é aqui.

Mas você não podia saber disso.

Hoje eles carregam bandeiras com seu nome. E você está morta.

E eu não sei me despedir de uma morta.

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