"Morta pela boca! Assassinada a jovem que, após ter prometido ao noivo comida caseira, ofereceu-lhe comida congelada!"

Essa manchete não me espantaria...

A modernidade nos exige muito tempo, e nem todos nós temos tempo sobrando para preparar a nossa comida. Precisamos que tudo seja rápido. Daí que hoje temos o fenômeno "Feijoada em lata"! Antes, se quiséssemos comer feijoada, teríamos que matar o porco e plantar o feijão, depois já podíamos comprar o feijão e as vísceras do porco tratadas! E agora podemos comprar a feijoada pronta! Enlatada! Tudo isso porque o Mercado percebeu que algumas pessoas queriam feijoada rápido!

Estou divagando sobre o assunto porque acabo de comer um prato de almôndegas com molho de tomates.

Se alguém me convidasse para um jantarzinho em casa, ficasse de me preparar o jantar e me servisse essas almondegas que eu comi hoje, provavelmente ia sair um assassinato.

Eu sou do tempo que preparar almôdegas para alguém era pegar a carne do boi, temperar, moer, fazer as bolinhas e fritar (É assim que faz se almôndegas???), somente dessa forma o convidado poderia enxergar a alma do cozinheiro.

Mas hoje, quando se entra em um super mercado já temos almôdegas prontas, molho de tomates pronto, molho madeira, molho branco, all kinds of salad's dressings, including Ranch, Blue Cheese and Vinegar, molho para yakisoba, para tempura, todo tipo de comida congelada, pré-cozida E feijoada em LATA!

Tudo isso desobriga muitas pessoas a enfrentarem as suas cozinhas e, até, quem sabe, gostarem delas. E a filosofia do "compre-pronto" não incentiva as pessoas que já têm alguma noção de culinária a testarem suas próprias receitas e molhos. Mesmo porque o cozinheiro precisa passar mais tempo na cozinha para que se estabeleça a intimidade com os ingredientes, até que ele se sinta seguro para ousar. O tempo que se passa dentro da cozinha, tempo, essa matéria tão preciosa, é fundamental para que surjam grandes feitos culinários. Grandes "descobertas" culinárias surgiram por descuidos ou experimentos de donas-de-casa, pessoas comuns, que estavam remexendo os seus ingredientes.

De repente do meio do Brasil ouviu-se um berro: alguém teve a idéia de misturar goiabada cascão com queijo de cabra, alguém teve a idéia de assar queijo coalho na brasa, e nunca mais o mundo foi o mesmo! Hoje até a cabra já vem enlatada. Fica só o sonho da cabra, a lembrança da goiabeira, do medo de pegar uma goiaba bichada, da avó fazendo a compota, da porca furada, sangrando, antes de virar o almoço, da brasa, do menino assando o queijo. Tudo, assim, demora mais, mas é melhor.

É claro que o Brasil ainda não sofre tanto o impacto da industrialização do P.F. Metade das mulheres dos Brasil OU TEM empregada doméstica, OU É empregada doméstica.  E a metade que é empregada doméstica cozinha para as duas metades.

Mas em países como os Estados Unidos e a Inglaterra sente-se muito mais o empobrecimento da culinária cotidiana. Isso não significa que a culinária artística, profissional, não esteja fazendo avanços maravilhoso no mundo inteiro. Mas o dia-a-dia, quando não é sábado à noite e a parte do mundo que janta não está jantando no Remi ou no Alain Ducasse, aí estamos comendo um macarrão-todo-pronto-de-microondas, numa cozinha onde talvez nunca tenha sido descascado um dente de alho (a minha).

Poderia se argumentar que a comida cotidiana sempre foi e sempre será mais sem sem-graça que a elaborada comida dos grandes restaurantes. Eu não concordo nem com o sempre foi (fazer feijão com arroz é uma arte de poucos) e nem com o sempre será.   

O homem do ano 2000 quer o prazer diário. Ele quer estar bem, vestir bem, morar bem e, por que não, comer bem? Todos os dias.

Mas a discussão é antiga e já foi amplamente abordada: estamos (os que comem) comendo comida fast-enlatada-de-plástico-de-mentira-fake.

Por isso é que eu estou lançando a campanha: "Gente, vamos ralar esse côco!"

Vamos meter a mão na massa, vamos experimentar coisas, abaixo a comida congelada!

Eu mesma não vou, não... Que eu tenho uma preguiça danada de cozinhar. Então eu vou continuar comprando meus pré-prontos-já-mastigados-semi-digeridos, mas VOCÊS, cozinhem aí!! E me chamem!!

"Às vezes eu acho que as pessoas falam comigo de modo grosseiro, mal-educado, porque elas não têm a menor idéia do que eu sou capaz. Mas um dia, vocês vão ver, um belo dia desses, eu perco a minha paciência, entro num cinema e descarrego uma metralhadora em vocês! Vocês vão ver!" *


* Jonh F. Rughston, condenado à morte na cadeira elétrica pelo assassinato de 24 adolescentes numa Escola Pública de Minessota.


Faço as dele as minhas palavras...


 

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