Eu passei nos últimos trinta minutos dançando freneticamente na minha sala um som que me parece ser uma mistura do coco de Pernambuco com a coisa mais hip-pop-techno-house-streap-tease-mais moderno de Nova York, que está vazando da festa de gente “bonita, descolada e legal” que está ocorrendo no prédio ao lado, bem na altura da minha janela.
“Triste..."
Já que hoje é sábado à noite, eu sou jovem, bonita e saudável e estou em casa, dançando sozinha o quê (agora) parece ser um remix de Don’t Let me Down, dos Beatles feito por Snoop Doggy Dog e regravado pelo Green Day, enquanto meu marido (que tem o seu próprio apartamento, não divide as contas comigo e com o qual eu não sou casada diante nem do juiz dos homens nem Deus), dorme no quarto ao lado, achando muito normal o estado deplorável no qual sua esposa se encontra na sala. E a pobre mulher (que no caso sou eu, a vítima da situação ridícula na qual eu me encontro), após ter captado (involuntariamente) a atenção dos rapazes da festa ao lado, a tal em que ela se aproveita do talento do DJ., começa a responder, timidamente os “tchauzinhos” que são lançados do outro edifício para a sua janela e, depois, continua dançando um pouco com os rapazes do outro edifício (por educação), até que do outro prédio vem o grito: “Mostra os peitos!” Eu penso “Puta que o pariu”, faço um gesto obsceno em direção ao meus vizinhos, o qual é recebido com entusiasmo, o que me faz não resistir e gritar: “Vocês gostam, né?” Acho que fizemos as pazes. Por vias das dúvidas eu fui dançar longe da janela e, pensando no ocorrido me veio a frase inevitável para uma pessoa que, pouco tempo antes, havia fumado dois baseados do tamanho da angústia do goleiro na hora do gol e faz amizade com os vizinhos: Que viagem..............
Tenho pensado muito nas minhas viagens. Os lugares que eu estive e o que eles significaram.
Mas antes tenho que comer alguma coisa. E tem que ser doce.
As únicas possibilidades de sobremesa na minha cozinha são:Leite Ninho e doce de goiaba.
Mas eu queria comer alguma coisa especial.
Bom, eu sei que uma papa de Leite Ninho bem grossa fervida com açúcar vira leite condensado (ou a coisa mais próxima de leite condensado que não seja leite condensado!) , logo eu imaginei que leite condensado sem açúcar viraria o quê? Queijo! (Não contestem a lógica de uma pessoa que hoje faria Bob Marley pensar que ele é apenas um garotinho, esperando o ônibus da escola, sozinho, com suas meias três-quartos.)
E a minha lógica estava certa! Como demonstro na equação abaixo:
Leite Ninho + Açúcar = Leite Condensado.
Leite condensado – Açúcar = Queijo
LOGO,
Leite condensado – Açúcar = Queijo.
(Leite Ninho + Açúcar) – Açúcar = Queijo
Como quando passa para o outro lado o sinal muda de valor:
Leite Ninho + Açúcar = Queijo + Açúcar.
Como não nos interessa comer queijo com açúcar e,
segundo a equação demonstra,
só teremos açúcar no queijo se o colocarmos no leite Ninho, podemos provar matematicamente que:
Leite Ninho = Queijo
E mousse de queijo com goiabada é bom! E especial!
As calorias da quantidade de “mousse” que ingeri forneceriam energia para uma criança estudar da quinta série até o fim da faculdade.
E então eu voltei para as viagens. Tenho lembrado muito, ou tentado lembrar.
E ontem eu fiquei ouvindo aquela música que Caetano gravou, que é um poema de Maiakovski, e que Gal gravou também e berrava “Ressuscita-me!” e eu fiquei pensando, vindo de Maiakovski, se eu alguém pudesse, de fato, ressuscitá-lo, ou tê-lo salvado. E toda vez que me chega um verso de Maiakovski que eu ainda não conhecia (e eu conheço pouco) eu fico tão triste, porque me deu essa mania de pensar que eu sou amiga dele depois que fui na casa que ele viveu em Moscou.
Ontem eu escrevi:
Ao Camarada.
Todos os monumentos são iguais.
Apenas um pouco maiores ou menores do que pareciam na televisão ou em fotografias.
Todos os castelos são parecidos.
Ostensivos, luxuosos, sombrios. Inúteis.
Em todas as praças alguém grita por um ideal,
um regime mais justo ou um filho que sumiu.
Coisas que não vão voltar.
Os museus carregam sua mancha de sangue, pilhagem e preconceito,
E as ruas ainda são todas iguais: Pessoas passam.
Tudo enche os olhos.
Tudo se apaga na memória.
No Velho Mundo a única coisa que resta, que se destaca,
imaculada em seu espanto, em sua solidão,
é o quarto úmido e pequeno onde o poeta Maiakovski tirou a própria vida,
abandonado pela revolução e por uma mulher.
Maiakovski - "Enche, pois, de palavras minha loucura!"