FILO 2009 abriga estreia de novo espetáculo dirigido por Cacá Carvalho

15/06/2009 - 11:29 - Michel Fernandes, especial para o Último Segundo

 

LONDRINA – O terceiro rebento da Casa Laboratório Para as Artes do Teatro, "Os Figurantes", dirigido por Cacá Carvalho e com dramaturgia de Cláudia Barral, estreia nacionalmente nesta segunda-feira (15) dentro do Festival Internacional de Londrina – FILO 2009 depois de, aproximadamente, oito meses de investigações sobre tipos que “estão na paisagem urbana”.

Divulgação

Cacá Carvalho gesticula na coletiva do FILO

Em entrevista coletiva em Londrina, Cacá Carvalho explicou que o espetáculo surgiu de uma pergunta bastante objetiva: “Qual o personagem vocês gostariam de representar fora da Casa Laboratório?” Autores como Clarice Lispector, Bernard-Marie Koltès e Manoel de Barros surgiram entre os textos que continham o desejo de personagens pelos atores.

“Surgiram sete desejos diferentes e convidei a dramaturga Cláudia Barral para assistir, durante uma semana e sem saber de que textos partiam, estes sete momentos de silêncio (as improvisações não continham falas). O tema determinante que desejamos trabalhar é o silêncio que existe nas grandes cidades, desejamos entender as grandes cidades”, contou o ator e diretor.

A “moldura”

Segundo Cacá, quando o cenógrafo e figurinista do grupo, Márcio Medina, assistiu a um dos ensaios, disse que para "Os Figurantes" era essencial que a cena fosse emoldurada feito quadro, o que veio de encontro com a idéia de Cacá. “Os personagens estão na paisagem dos vários tipos urbanos”, adiantou.

Para o diretor, esta “moldura” expande o conceito de “entendimento lógico” dessa experiência teatral. “Queremos trabalhar a lógica da moldura, trabalhar o que existe entre nós e a realidade. Queremos ser emissores de sinais, deixar espaço para o público”, completou.

A ideia para o título da peça é de que mesmo aqueles que se imaginam protagonistas na vida, não o são. “Não existem protagonistas na vida, somos todos figurantes”.

"Os Figurantes" estreia em 022 de julho na Casa Laboratório, sede do grupo em São Paulo, e em agosto Cacá Carvalho começa a ensaiar novo trabalho como ator, dirigido por Roberto Bacci, que estreia em novembro, na Itália. Seu novo solo, "O que os Atores Deixam para os Atores", utiliza como matéria-prima escritos deixados por atores, sobretudo Louis Jouvete.

 

 

Hora Branca

 

 

Para Nefertite, a coelha que já não pula.

 

 

 

Quando não é dia ainda e a escuridão já se dissolveu no céu, os espíritos dos que morreram durante a noite vão subindo por uma estrada invisível e ninguém os vê ou ouve.

Apenas os pássaros, na sua balbúrdia matinal, comemoram não serem eles os que estão mortos. Outros animais também festejam a hora branca, esses correm e se agitam.

Diante da hora branca tudo existe com mais força, é a hora em que a pedra é mais pedra e o caju é mais caju. Tudo se afirma, tudo se apruma, tudo se prepara para a chegada da esfera de fogo.

Depois, os que venceram o sono e seus mistérios, a noite e seus perigos, enchem o hálito da manhã de bocejos e os intestinos operantes voltam a alimentar a terra.

 

 

 

 

 

Quando eu cheguei, o sertão já estava.

A vida: o estar esturricado das coisas. 

A vida matando a gente.

Sertão come tudo. É antes de tudo. Branco.

Sertão é todo lugar.

 

 

 

 

 

O telefone, gatinho negro, me metendo susto.

Toda vez que eu vou ficando contente ele vem e pronto: estraçalha o silêncio, eu sou um salto.

O telefone me vigia com seus vários olhinhos de números, eu vou fazer uma bobagem ele diz: Triiiiimmmm!

- Trim para o senhor também, seu telefone.

Um dia eu quis matá-lo, mas ele fez um trim tão bonitinho que eu desisti.  

 

 

 

 

 

 

Minhas portas se fecharam novamente

Meu coração só dá passagem ao meu amor

O mundo é frio, cruel, indiferente

Quero amanhecer na ilha feita por nós dois

 

Sou uma solitária, encabulada

Tenho labirintos que você já percorreu

Essa é só uma valsa desleixada

Só uma alegria antes da morte

 

 

 

 

 

Um pôr de sol, papéis caindo de edifícios, uma árvore crescendo, o movimento dos planetas, a reprodução das algas marinhas, o sono de uma criança instantes antes de nascer, ou o segundo de antes de dormir, coisas que são do silêncio.

Um homem vê a sua mulher partindo e sabe que não há palavras para dizer quantos mundos havia nos olhos de sua mulher, não há palavras para o que é perdê-los.

E nem que todos as portas do mundo batessem, nem que todas as lâmpadas estourassem, nem que todas as xícaras caíssem e todas as mulheres gritassem na mesma hora, nem todo o barulho do mundo poderia ser maior que o silêncio daquele homem.  

 

 

 

 

 

 

Zulmira.

 

Um dia Lúcia quis olhar pra Zulmira e não pôde. Teve pânico. Não sabia o que estava acontecendo entre as duas, não podia olhar-lhe na cara. Não é normal, entre amigas. Zulmira era amiga. Não era? Era porque um dia ela disse. Depois daí nada mudou. Agora não podia vê-la. Quando cruzavam os olhos, ficava enjoada.

Mas o que é isso que acontece? O que acontecia é que ela estava sentindo e estranhava. Sentia raiva, ódio. Foi ao espelho e viu a sua expressão de fúria. Agora estava pronta para encarar Zulmira, já sabia quem ia ser.

Sabia também quem eram os amigos. Não sabia? Se Zulmira era boa, por que a odiava? Pensou em Zulmira, na forma como a tratava, na forma como era tratada de volta. Seu ódio explodiu como um vulcão. Quis cravar as unhas no rosto da amiga. No rosto feio da amiga. O problema era esse: Lúcia era bonita, Zulmira era feia. Lúcia era o brinquedo, o troféu, o imã, o objeto da sutil perversidade de Zulmira. Uma vez, Lúcia lhe pediu um sapato emprestado para um encontro e estava animada, teve que voltar à sua casa algumas vezes até Zulmira lhe dizer que não tinha mais o sapato. Noutra ocasião, Zulmira deu fim no gato de Lúcia só para vê-la chorar.

Lúcia era bonita, mas era uma, de forma que Zulmira se refestelava com os restos. Quando os urubus chegavam, ela comia ensopado de urubu, comia os rejeitados, comia as sobras do prato de Lúcia. Sendo feia, como era, não havia outro jeito de se aproximar dos homens. Lúcia era a isca, ela era é hiena, os homens são cruéis.

O amor? O amor viria depois. Viria sem ver cara, cheio de perdão e glória, o amor é incêndio e força. Mas Zulmira era o ódio.

Aproveitadora, ambas sabiam. Nada precisaria ser dito. Ela sentia e bastava.

Durante muito tempo esteve nua, não sabe quem lhe feriu, estava ausente.

Agora voltava a ver uma fresta de luz dentro do seu próprio breu, estava se vestindo de emoções, nascia berrando e era bom. Era um milagre, como a vida. Estava alegre e atenta, era uma mulher humana, inteira carne. Sua respiração era pesada e quente, ela não sabia nada, estava forte.

Esperava o momento de encontrar a outra, queria olhá-la com ódio, queria senti-lo, gastá-lo. A leoa ia expulsar a hiena. Ia comer em paz. Estava feliz, não queria falar. Tinha ódio e estava feliz. Aceitava. Estava sendo amiga de si mesma.

Eu me aceito, disse em voz alta. E o primeiro dia da sua vida começou a amanhecer.

 

 

 

 

 

 

 

Eu aguardo o impossível, espero calada, busco sentido em frases sem sentido, como a rainha tece seu manto de persistência, espera e mentiras. Eu não enxergo mentiras. Eu sou a princesa presa na torre, você é o meu príncipe.

 

 

 

 

 

 

Repetição

 

Agora, se vier me buscar o que vai encontrar é uma mulher magoada. Uma que quase não sai da companhia das irmãs para estar com os homens. O que você verá em mim é uma flor que já não abre, ou um dia que não sabe amanhecer.  A árvore foi podada quando ainda era semente e essa semente que sou eu e que você insiste em regar, só de vê-lo, lembra do machado. O maldito machado.

 

 

 

 

 

Eu vejo os carros passando,

Minha vida acompanha o ritmo do que eu vejo.

Eu quero ver alguma coisa que exista no tempo de uma fruta amadurecendo.

 

 

 

Foi no escuro que eu mudei.

Mágica da noite.

No amanhã de qualquer dia serei velha.  

O menino, também, foi acordando cada dia mais homem,

até o dia em que foi só o homem quem acordou e o menino desapareceu no sonho.

 

 

 

Perguntas pra se fazer depois.

 

Você sente que precisa de um mapa da vida?

Você tem plena consciência do abismo intransponível que há entre o que você acha que sabe e a realidade?

Você tem noção da sua cegueira acerca de si mesmo?

Você sabe rir de seus erros?

Você consegue sorrir diante da sua imensa incerteza?

Você consegue sorrir?

Ou você prefere colocar os óculos e fingir?

Você se incomoda quando riem de você?

Quanto você se distanciou do pó?

Você lembra que vai ter que fazer o caminho todo de volta?

Ou é melhor não falar de morte agora?

Ou é melhor não falar nunca?

 

 

 

 

 

Eu sou a que saiu pra comprar cigarros e nunca mais voltou.

 

 

(Falta aprender a sofrer)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

De repente as andorinhas de verão, o verão que eram seus olhos, vieram até mim.

Eu não sou digno. Não sou esse. Eu sou o outro.

No meu tempo por amor se podia até morrer.

 

Meu amor me ensinou lições tão duras,

Sou vazio de abraços,

Leve o seu olhar de pássaros,

Hoje eu quero a minha dor.

 

Eu quero chorar por ela.

 

 

 

O amor não sabe desaparecer como explodem silenciosas as estrelas no universo. Ele está entre as coisas que passam, que são barcos, crianças correndo, ventos, mas não sabe partir. A infância, quando eu mesma era a criança que corria, esse véu de lembranças que trago, a morte, meus avessos, a rosa amarela que não terá fim porque não teve começo, as luzes que se acenderam em nós, tudo isso ainda está, permanece, enquanto passam as coisas que sabem passar.

 

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